Sulco Espigaitado

Intervenção de Mariana Barrote

Descrição do Projecto

coordenadas 41.866370, -8.200137

Instalação nos espigueiros do Lindoso tendo como referência os cultos agrários

Mundivisão agrária venera as forças opostas (dualidade) que, no seu jogo, permitem um mundo vital ordenado: Sol – Lua (dia e noite); Homem – Mulher (rituais de fertilidade); Cima – Baixo (forças telúrica e celeste); Calor – Frio; Vida – Morte. Segundo momento em que a dualidade confere a potencialidade para a mesma ser integrada e transcendida: A força telúrica (como a Diaba primordial, a malha intrincada de que é feita a matéria Terra) como impulsionadora do movimento da força celeste que se reconhece a si mesma (dissolução das dualidades). A inseminação da terra pela água. A instalação terá dois momentos: um no interior dos espigueiros, outro no exterior.

Momento 1

Interior de espigueiros: A força do mundo velada. O interior dos espigueiros contém o mundo em suspenso, sem passado presente ou futuro. As forças impassíveis ao tempo, as mesma que criam com indiferença a pluralidade dual deste mundo: Masculino, Feminino; Noite, Dia, as que a vida necessita para se expressar. As forças que os agricultores respeitam e divinizam.

espigueiro nº1

Vídeo da dança da diaba (ativação das forças telúricas que preparam o terreno para criativas e extravagantes formas de vida vegetal). Imagem projetada sobre pano de palha colocado sobre a parede do fundo do espigueiro. Pote com água reservada no seu interior.

espigueiro nº 2

Vídeo da dança do ritual de fertilidade (forças vitais expressas no desejo de inebriamento, de entrega cega, de crença profunda na vida). Imagem projetada sobre pano de palha colocado sobre a parede do fundo do espigueiro. Milho e canas no chão do espigueiro.

espigueiro nº3

Máscara suspensa no ar e central através de cabos de aço. A máscara do inacessível, do último mistério, do vazio que sustenta este mundo. A base impassiva e paradoxal de toda a estranheza e ordem dual do mundo agrário. Sem iluminação, com um espelho no chão do espigueiro.

Momento 2

Exterior dos espigueiros – espaço circundante JOGAR COM O VENTO, SOPRO DO ESPÍRITO, Criar um percurso por entre os espigueiros, através do som (chocalhos e guizos que orientam); de fitas espanta.pássaros e tecidos ao vento; do reflexo lunar, espelhado, no chão dos espigueiros. Esse reflexo reflete a luz, que brilha dourada, mas também o negro da noite, as estrelas, e a profundidade incomensurável de quem neles se olhar, caso seja um ser bendito pelo destino. Entre os espigueiros surgem figuras perturbadoras, que têm como função mais simples o espantar os pássaros, mas que para mim possuem uma riqueza muito maior. Espantam o espírito, criam o temor necessário para a coragem de o transgredir, provocam o sentimento antitheos – de desafiar a ordem dos deuses, de ver para além desses rostos de espantalho, rostos de Glória, e assim mergulhar na aventura terrível de deixar de ser para Ser. Tecidos pendurados entre alguns espigueiros a criar barreiras ou obrigar a passar entre essas camadas de cor.

 

“Espantalhos” espalhados pelos espigueiros, altos e sonantes. Espantalhos ligados aos cultos agrários, ciclos da vida: Sol e Lua presidem e estimulam a vida vegetal. Ligação com a imagem do cruzeiro que possui um rosto benfazejo e lunar. Fitas estendidas a criar percurso ou “biombos” de palha entrançada a criar sombras e espaços de contemplação dos espantalhos. Tapete de palha entrançada no chão e o mesmo esticado no ar para criar sombra.

– primeiro homem (homem-planta), corpo poste com fitas estendidas, pinturas de cariz vegetal
– corpo de meda de palha e ROSTO SOL, com fitas espanta-pássaros douradas
– Rosto Lua, corpo poste madeira, chocalhos, pintura com símbolos das gravuras rupestres da Bouça do Colado
4,5,6 – espantalhos com roupa e corpo feito de palha (Medas) e folhas secas de palmeira, um, sentado com cajado e rosto de diabrete; outro com água a sair da boca (fonte) pode ser com contas de vidros ou um tecido brilhante azulado; outro ainda risonho que olha o céu com estrela na testa com colares mau olhado (borboletas, cruzes, saqueta alhos incenso e arruda).